quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A tentação de Jesus


A tentação de Jesus (Mt-4:1-11)

Este trabalho pretende ser uma interpretação bíblica sobre Mateus 4:1-11, tentarei quebrar alguns dogmas e misticismo  que cercam este texto. Para isso tentarei mostrar um Jesus mais humano e não aquele super-homem que sai voando do deserto para o pináculo do templo, juntamente com satanás. Para tais propósitos irei utilizar ferramentas exegéticas, elas nos ajudam a conhecer o texto na sua forma e conteúdo. Abordarei os seguintes itens: tradução do texto, data, lugar, autoria, gênero literário e forma, finalmente assunto de interpretação. Além do mais fornecerei uma conclusão que possa ter relevância em nossa atualidade.


         Perícope: A narrativa da tentação de Jesus no Evangelho de Mateus, fica estabelecida no capítulo 4 dos versículos 1-11, pois no capítulo 3 e versículo 17 termina a narrativa do se batismo, e no capítulo 4 versículo 12 se inicia com Jesus voltando para a Galiléia, após a prisão de João Batista.

         Traduções: RC (para estudo do texto)
                            NVI (para comparar os textos)
         Para o estudo final do texto e exposição do mesmo, usei o novo testamento interlinear, por ser mais fiel aos originais.
         Equivalente sinótico: o texto o qual é o objeto de estudo se encontra nos três evangelhos sinóticos, sendo que Marcos é muito breve, pois dedica apenas dois versículos (Mc-1:12-13) e não especifica as três tentações relatadas por Mateus e Lucas. Para Mateus e Lucas, Jesus cumpriu sua missão mediante uma luta contínua contra “satanás” chamado “diabo” acrescentando as três tentações provavelmente tiradas da fonte “Q”.
         A maior diferença encontrada no texto de Mateus com relação a Lucas: é a troca da segunda pela terceira tentação. Mateus espiritualiza o texto mais do que Lucas, tirando Jesus do deserto e o colocando no pináculo do templo que é um ambiente religioso.
          
          
Texto (Mt-4:1-11)
A tentação de Jesus

         1 Então Jesus foi levado para o deserto por o Espírito para ser tentado por o diabo. 2 E tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, ao final teve fome. 3 E aproximando-se o tentador disse a ele: Se és filho de Deus, dize para que estas pedras se tornem pães . 4 Mas ele respondendo disse: Está escrito: Não de pão somente viverá o ser humano, mas de toda palavra saindo por (a) boca de Deus. 5 Então toma o diabo consigo a ele para a cidade santa e colocou a ele sobre o pináculo do templo, 6 e diz a ele: Se és filho de Deus , joga a ti mesmo abaixo; pois escrito está: Aos anjos dele ordenará a respeito de ti e em (as) mãos carregarão a ti, para que não batas contra pedra o teu pé. 7 Disse a ele Jesus: Também está escrito: Não tentarás (o) Senhor o teu Deus. 8 De novo toma o diabo consigo a ele para um monte muito alto e mostra a ele todos os reinos do mundo e a glória deles. 9 e disse a ele: Estas coisas todas a ti darei, se prostrando-te adorares a mim. 10 Então diz a ele Jesus: Vai embora, satanás; Pois escrito está: (O) Senhor teu Deus adorarás e a ele somente darás culto. 11 Então deixa a ele o diabo, e eis anjos se aproximaram e serviam a ele.


EXEGESE
         1 Então Jesus foi levado:
         [1] A expressão ser levado define um fenômeno transcendental, levado em espírito ou transportado em espírito, o verbo está sempre no passivo, indicando uma ação que vem de fora. A palavra “espírito” está relacionada a experiência espiritual, esta experiência é entendida simbolicamente como abandono do corpo por parte do espírito, nesse abandono, o visionário é transportado para fora da realidade humana, também como o seu corpo. Vejamos alguns exemplos: (Ez-37:1-2) Veio sobre mim a mão do Senhor; e o Senhor me levou em espírito, e me pôs no meio de um vale  que estava cheio de ossos, e me fez andar ao redor deles; e eis que eram mui numerosos sobre a face do vale e estavam sequíssimos.
         (Ap-1:10-11)  Eu fui arrebatado em espírito, no dia do Senhor, e ouvi detrás de mim uma grande voz, como de trombeta,  que dizia: O que vês, escreve-o num livro e envia-o às sete igrejas que estão na Ásia: a Éfeso, e a Esmirna, e a Pérgamo, e a Tiatira, e a Sardes, e a Filadélfia, e a Laodicéia.
         Em ambas as visões os visionários estão envolvidos tanto com o seu espírito quanto com o seu corpo, Ezequiel caminha sobre um vale de ossos e cita detalhes de sua visão “os ossos eram mui numerosos e estavam sequíssimos” ele fala, vê e ouve. João ouve uma voz e recebe ordens para aquilo que ele ver, ele escrever.
         A experiência de Jesus è real, enquanto seu espírito é levado para fora do seu corpo; Jesus experimenta a visão sendo levado em espírito, que como já vimos tem a ver com a dimensão espiritual de sua pessoa, mas Jesus é levado corporalmente por satanás, contempla todos os reinos do mundo, é levado corporalmente para Jerusalém, sendo colocado no ponto mais alto do templo. Não se trata somente de uma visão espiritual (levado em espírito), pois o corpo de Jesus está totalmente envolvido em seus sentidos: Tem fome, vê, fala, ouve e é transportado pra lá e para cá e trava uma batalha verdadeira com satanás. A impressão que se tem é a de uma experiência mística tão profunda e completa que até o corpo do visionário, e não apenas seu espírito, é envolvido. As duas dimensões, o êxtase espiritual (arrebatamento íntimo, admiração de coisas sobrenaturais) e transporte corporal, são elementos típicos da literatura apocalíptica, cujo caráter de revelação se dá geralmente pelo êxtase que possibilita a visão e o acesso às “coisas divinas”. É mais um elemento que confirma nossa intuição de considerar (Mt-4:1-11) como um relato de experiência visionária e extática (posto em êxtase).
         A experiência de Jesus é espiritual, por seu espírito está sendo levado e real quanto aos lugares que está indo, não que os lugares sejam físicos, são reais por serem locais existentes.
         Esta experiência de viagem espiritual é profunda, complexa e de difícil compreensão, que até quem experimentou não sabe definir direito, vejamos o que o apóstolo Paulo escreveu em (2Co-12:1-4)  Em verdade que não convém gloriar-me; mas passarei às visões e revelações do Senhor.  Conheço um homem em Cristo que, há catorze anos (se no corpo, não sei; se fora do corpo, não sei; Deus o sabe), foi arrebatado até ao terceiro céu.  E sei que o tal homem (se no corpo, se fora do corpo, não sei; Deus o sabe) foi arrebatado ao paraíso e ouviu palavras inefáveis, de que ao homem não é lícito falar.
         2 Para o deserto:
         Agora precisamos analisar alguns fatos; a tentação de Jesus se dá logo depois do seu batismo, no evangelho de Marcos (1:9) diz que Jesus indo de Nazaré da Galiléia. Foi batizado por João no rio Jordão, e o evangelho de João identifica esta região em que João batizava, sendo em Betânia (Jo-1:28) essas coisas aconteceram em Betânia, do outro lado do Jordão onde João estava batizando.
         Betânia, que quer dizer “casa dos pobres” uma aldeia na vertente oriental do monte das oliveiras, cerca de 2.700 m. quase 3 km. a oeste de Jerusalém, na estrada que liga Jerusalém a Jericó. Era em Betânia que se situava a casa dos irmãos, Lázaro, Marta e Maria. Na maioria das vezes que Jesus esteve naquela região hospedava-se na casa deles. (Mt-21:17), (Mc-11:1,11,12), (Lc-10:38), (Jo-11:1).
         Por estas referências e pelo contexto de que Jesus estava naquela região, acredito que depois do seu batismo Jesus foi para casa dos seus três amigos, se isolando em algum lugar da casa, ficando em jejum por quarenta dias, Jesus absteve-se de alimento, mas não de água. Abster-se de água por quarenta dias requer um milagre. Uma vez que Jesus teve que enfrentar a tentação, como representante do homem ele não podia empregar nenhum outro meio para vencê-la além do de um homem cheio do espírito Santo. Após os quarentas dias de jejum, entra em êxtase espiritual. Êxtase (arrebatamento íntimo, admiração de coisas sobrenaturais) ou seja levado em espírito.
         O primeiro deserto a que Jesus é submetido é uma solidão interior, pois nem sempre deserto se refere a um lugar geográfico, mas também a lugar desabitado, despovoado ou estar sozinho, nesta experiência Jesus é levado para fora do seu corpo, isso acontece numa situação de solidão interior, que em primeiro plano não deve ser entendida como ir para um lugar geográfico, mas sim como uma situação espiritual, após quarenta dias desse deserto (solidão interior) entra em êxtase espiritual e de dentro desse primeiro deserto faz uma viagem extática (posto em êxtase) o êxtase, a saída do corpo e a visão de Deus são simbolicamente expressos na estrutura literária da “viagem extática”. [2] Existem vários tipos de “viagens extáticas” sendo que as mais conhecidas, na literatura antiga, são a viagem ao céu, a descida ao inferno e a viagem pela terra. Vamos analisar as três, procurando elementos para entender a “estranha viagem” de Jesus no relato da tentação.  
2.1) Viagem ao céu: É a mais comum das viagens, sobretudo na literatura apocalíptica, nos capítulos 4 e 5 do livro do apocalipse encontramos alguns  elementos de viagem celestial. (Ap-4:2)  e logo fui arrebatado em espírito, e eis que um trono estava posto no céu, e um assentado sobre o trono.
         Segundo a tradição o apocalipse foi escrito pelo apóstolo João, quando este estava só na ilha de Patmos e enviou-o às sete igrejas na Ásia Menor (1:11), no capitulo 4, João é levado em espírito para o céu, nesta viagem é acompanhado por alguém, vê um trono, alguém assentado sobre este trono, tem a visão de anjos, do que vai acontecer, audição e revelação.
         Em comparação com o nosso objeto de estudo, (Mt-4:1-11) encontramos os seguintes elementos comuns: O êxtase, assim como João Jesus é levado em espírito, situação de solidão interior, Jesus também só que por um anjo decaído, o diabo,  a subida ao ponto mais alto ou ao céu, Mateus não faz referência a Jesus atravessando vários céus, mas sim a Jesus sendo levado ao ponto mais alto do templo e a um monte muito alto, de lá Jesus contempla não o trono de Deus mas o de satanás ou seja os reinos sobre os quais ele exerce sua autoridade e pelos quais ele pede para ser adorado.
2.2 Descida ao inferno: No evangelho de Bartolomeu (citado por Justino em 150 d.C) fala da descida de Jesus ao inferno com o objetivo de tirar dali Adão e todos os que com ele se encontravam e de acorrentar o diabo, Quando ias no caminho da cruz, eu te segui de longe. E te vi a ti, dependurado no lenho, e os anjos que, descendo dos céus, te adoraram. Ao sobrevirem as trevas e eu estava a tudo contemplando. Eu vi como desapareceste da cruz e só pude ouvir os lamentos e  o ranger de dentes que se produziram subitamente das entranhas da terra. Dize-me, Senhor, onde fostes depois da cruz? Jesus então respondeu desta forma: Feliz de ti,Bartolomeu, meu amado, porque te foi dado contemplar este mistério. Agora podes perguntar-me qualquer coisa que a ti ocorra, porque tudo dar-te-ei eu a conhecer. Quando desapareci da cruz, desci aos infernos para dali tirar Adão e a todos que com ele se encontravam, cedendo às súplicas do anjo Gabriel
         No novo testamento vemos isso em (Ef-4:8-10) pelo que diz subindo ao alto, levou cativo o cativeiro e deu dons aos homens. Ora, isto ele subiu que é, senão que também, antes, tenha descido as partes mais baixas da terra? Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para cumprir todas as ciosas. Ainda temos (Rm-10:6-7), (1Pe-3:18-20), (1Pe-4:6).
2.3 Viagem pela terra: Na literatura judaica antiga a viagem pele terra por um agente celestial não era novidade, no livro de Enoque temos o seguinte relato: (1En-17) “Eles levantaram-me a um certo lugar, onde lá havia a aparência de um fogo fervente; e quando eles se agradaram assumiram a semelhança de homens. Eles levaram-me a um alto lugar, a uma montanha, cujo topo alcançava o céu. E eu vi os receptáculos da luz e do trovão nas extremidades do lugar, onde ele era profundo. Havia um arco de fogo, e flechas em seu vibrar, uma espada de fogo, e toda espécie de relâmpagos.
         Então eles levaram-me a um arroio murmurante, e a um fogo no oeste, o qual recebeu todo pôr-do-sol. Eu vim a um rio de fogo o qual fluiu como água e desaguou no grande mar para o oeste. Eu vi todo largo rio, até que cheguei a grande escuridão. Eu fui para onde toda carne migra; e vi as montanhas da escuridão as quais constituem o inverno, e o lugar do qual flui a água em cada abismo. Eu vi também as bocas de todos os rios do mundo e as bocas das profundezas.3 No testamento de Abraão, documento redigido talvez no Egito entre o I e o II século d.C, encontramos o relato de uma longa viagem de Abraão pela terra. Deus manda o arcanjo Miguel falar com Abraão sobre sua morte para que ele dê disposição sobre suas posses. E Abraão faz um pedido a Deus, por intermédio de Miguel: Enquanto estou ainda neste corpo, gostaria de ver todo mundo habitado e todas as coisas criadas, que tu estabelecestes, Senhor, através de uma palavra e depois de ter visto essas coisas, eu deixo  a vida sem tristeza” (9,6). Então Miguel pega Abraão em um carro de querubins e o levou pelo ar do céu e o conduziu numa nuvem, onde estavam outros 60 anjos.


         3 A viagem de Jesus:
         Analisando a viagem de Jesus na tentação, notamos que ele não sobe ao céu nem desce ao inferno, é uma viagem pela terra que mistura elementos da viagem celestial e da descida ao inferno, ele é levado a três lugares diferentes e reais, de dentro do seu primeiro deserto (solidão interior) ele parte através do êxtase espiritual (em espírito) para o segundo deserto, agora lugar físico, este deserto é normalmente identificado como o deserto da Judéia que se estende para oeste de Jerusalém em direção ao mar morto e ao rio Jordão, a tradição popular identificou sempre este lugar como a morada do diabo.
3.1 As três tentações:
a) A tentação de transformar pedras em pães:
 (v.3) E aproximando-se o tentador disse a ele: se és filho de Deus, dize para que estas pedras se tornem pães.
  (v.4) Mas ele respondendo disse: está escrito: não de pão somente viverá o ser humano, mas de toda palavra saindo por (a) boca de Deus.
         [3]Transformar pedras em pães era reconhecido como o sinal dos últimos tempos que o messias poderia realizar. Este seria o grande sinal revelador de sua identidade e o colocaria na tradição dos grandes profetas do passado: de Moisés que deu maná para o povo no deserto (Ex-16), de Elias (1Rs-17), de Eliseu (2Rs-4); do pão de graça que, com vinho e leite, são a promessa para os últimos tempos (Is-55:1-2).
         Quando Jesus recusa transformar pedras em pães, na realidade ele está também afirmando que sua comida é diferente, pois um ser divino nunca comeria pão como os homens, não comer pão ou comida terrena é típico de seres celestes e também dos homens que tem experiências extáticas. Abraão, viajando em companhia do anjo Javel até o trono de Deus declara: (Ap.Abr-12-1) “Assim nós partimos e juntos permanecemos durante quarenta dias e quarenta noites. Não comi pão, nem bebi água, porque o meu alimento era contemplar o anjo que estava comigo e a minha bebida era a sua palavra”.
         Jesus cita (Dt-8:3), que é a tentação do povo no deserto, aqui também há uma alusão a (Gn- 3:1-5) onde a serpente identificada como satanás faz a tentação a Eva, que por sua vez cedeu, fazendo ceder também Adão, que não olharam para o que saiu da boca de Deus em (Gn-2:17) “ mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás”.
         Mateus escreveu seu evangelho para os judeus e apoiando-se na revelação, promessas e profecias do A.T, tenta provar que Jesus era o Messias, é como se ele estivesse dizendo: olha, o povo da promessa liderados por Moisés foi levado ao deserto para ser tentado e sucumbiu, mas Jesus foi levado para o deserto e venceu, olha o primeiro Adão foi tentado a comer e comeu, mas Jesus o segundo Adão venceu e não comeu.
         Aqui Jesus foi tentado pelo diabo, no sentido de usar o seu poder para proveito próprio: transformar pedras em pães no momento de intensa fome, o objetivo de satanás era produzir na mente de Jesus, que aquelas pedras, se ele quisesse se tornariam em pães, e assim estaria obedecendo uma ordem direta de satanás. O ataque de satanás foi exatamente em uma área carente de Jesus naquele momento. O tentador não tem a intenção de expor Jesus e destruir sua reputação desta maneira. Suas intenções são bem definidas e deliberadas. Seu objetivo vai em outra direção. Seu objetivo preciso é incitar Jesus a provar que de fato é o filho de Deus, mas por que? Que vantagem ele, o diabo, teria com isso? Na verdade seria ele, o diabo, que determinaria as ações de Jesus, seria ele quem teria, na verdade, o poder, seria em seu nome e para sua glória que os milagres seriam feitos. 
b) A tentação no pináculo do templo:
(v.5) Então toma o diabo consigo a ele para a cidade santa e colocou a ele sobre o pináculo do templo,
(v.6) e diz a ele: Se és filho de Deus, joga a ti mesmo abaixo; pois escrito está: Aos anjos dele ordenará a respeito de ti e em (as) mãos carregarão a ti, para que não batas contra pedra o teu pé.
         A relativação do corpo físico no ser transportado pelo céu, passando, num piscar de olhos, de uma situação física para outra, ficaria impossível se Jesus estivesse realmente com seu corpo físico no deserto da Judéia. Após vencida a primeira tentação, o diabo transporta Jesus em espírito pelos céus e o leva para o templo de Jerusalém. Ficar na ponta do templo de Jerusalém é uma ação tipicamente messiânica, pois se acreditava que quando o messias chegasse se colocaria no lugar mais alto do templo, (Ml-3:1).
         A palavra do diabo tem o intuito de apresentar muita piedade, ele toma medidas baseado na existência divina. Pois, agora, o que está em jogo não é a honra do filho de Deus, mas a honra do próprio Deus: ”Aos anjos dele ordenará a respeito de ti” (v.6). O poder de Deus será respeitado, o que significa (de acordo com a lógica do tentador) que será permitido “operar” e esta obra deve ser “expressa”. Mas aqui não está em jogo apenas a importância soberana do próprio Deus, o Deus cuja honra o tentador parece atribuir tanta importância. Ele vai além e reitera sua pergunta com as próprias palavras de Deus: “está escrito” (Sl-91:11-12).
         Jesus, para refutar o diabo, diz: Também está escrito: Não tentarás (o) Senhor o teu Deus. (v.7ª). Jesus faz uma alusão à (Ex-17:1-7) que na jornada pelo deserto de Sim, o povo contende com Moisés pela falta de água, onde deram o nome daquele lugar Massá e Meribá, (tentação e contenda) por causa da contenda dos filhos de Israel, e porque tentaram ao Senhor, dizendo: Está o Senhor no meio de nós, ou não? (v.7).
c) A tentação dos reinos do mundo:
(v.8) De novo toma o diabo consigo a ele para um monte muito alto e mostra a ele todos os reinos do mundo e a glória deles.
(v.9) E disse a ele: Estas coisas todas a ti darei, se prostrando-te adorares a mim.
         Jesus é transportado mais uma vez como num piscar de olhos, o cenário agora é uma montanha, cujo nome não é identificado, a partir da qual podia ver todos os reinos do mundo. A visão do mundo materialmente é impossível, pois não existe montanha tão alta que possibilite uma abrangência universal. Algo semelhante aconteceu com o apóstolo João (Ap-21:10).
         Nesta tentação, satanás tem o objetivo de vencer Jesus pela visão, astutamente de um monte alto, onde a visibilidade é maior, descortina diante dos olhos de Jesus, os reinos do mundo e a glória deles,o que satanás oferece a Jesus não é nada material ou físico, mas sim, transigência, poder terreno, artifícios políticos, violência, domínio, popularidade, honra e glória humana. Esta estratégia é muito antiga, começou lá no Éden (Gn-3:6). Ló foi seduzido pela visão da campina do Jordão e fracassou (Gn-13:10-11). No sermão do monte, Mateus escreve que a lâmpada do corpo é o olho e que se o olho for bom, todo corpo será iluminado.
         Encontramos aqui uma visão “terrestre” do trono celeste: o diabo se declara senhor dos reinos da terra habitada, propõe toda esta glória a Jesus, mas exige em troca culto e adoração, nesta tentação o diabo revela o seu maior desejo, ser adorado por Jesus. O verbo adorara do nosso texto bíblico em pauta: “estas coisas todas a ti darei, se prostrando-te adorares a mim”. (v.9) é “proskuneo” (grego), que dá a idéia de curvar-se a tal ponto de beijar os pés, Jesus responde dizendo a ele, que este tipo de adoração, somente Deus é digno de receber, que o único Senhor é Deus tanto no céu como na terra e só a ele se presta culto, (v.10). Podemos interpretar que por trás da afirmação de Jesus, “está escrito: o Senhor teu Deus adorarás e a ele somente darás culto”, tenha uma ordem explícita para o diabo voltar a sua real condição angelical dependente e a serviço do Altíssimo e não opositor e adversário dele.
         Antes da tentação em (Mt-3:17b) está escrito: “Este é o meu Filho amado”. As duas primeiras tentações o diabo usa as condicionais “Se tu és o Filho de Deus,” satanás baseado no fato de que Jesus é o Filho de Deus.  Nas condicionais “se tu..” o tentador não leva isso em consideração. Ele está bem preparado para reconhecer que Jesus é o Filho de Deus, tem duvidas apenas das razões táticas para desempenhar alguns milagres. O diabo não apenas está sendo grosseiro como procura ridicularizar o Senhor ou rir dele porque falha em operar milagre.
         O que o diabo quer dizer por Deus e Filho de Deus não é Deus absolutamente, mas um fantoche a quem o diabo faz encaixar em seus propósitos, e pode fazê-lo dançar pular, operar o milagre do pão, pular do pináculo do templo. Este deus não é o Senhor do diabo, mas seu escravo. O diabo o usa a fim de depositar as grandes questões da vida em sua conta pessoal.

         4 Paralelismo:
(v.3a) E, chagando-se a ele o tentador,
(v.11a) Então, o diabo o deixou;
         No começo da tentação se aproxima satanás, neste momento é manifesto o reino das trevas, Jesus é tentado, torturado psicologicamente e depois de todo este processo ele vence. Derrotado, o diabo retirou-se e Jesus foi servido pelos anjos, neste momento é manifesto o reino de Deus.
         Analisando este texto pude entender melhor (Tg-4:7) “Sujeitai-vos, pois a Deus; resisti ao diabo, e ele fugirá de vós.”

CONCLUSÃO
        
         Quando Jesus disse e fez tudo isso contra o diabo, “então o diabo o deixou, e os anjos o serviram.”
         Que conclusão para esta hora! E o reino dos céus e do inferno inclusos neste momento! Cristo foi “tentado como nós” esta é a maravilha desta hora. Pois porque ele foi tentado, tem compaixão das nossas fraquezas, temos um irmão quando o perigo mais ameaçador da vida se aproxima. Agora, não existe mais solidão
         Sim, existe outra maravilha em tudo isso: ”ele foi tentado em tudo, como nós, porém sem pecado”.
         Será que conseguimos entender o que isso significa?
         Desde o princípio sabemos como Jesus havia sido levado ao deserto, sozinho, para ser tentado, e não obviamente, para participar de um mundo de oportunidades pecaminosas e sedutoras. Esta foi a dica que recebemos quanto ao significado da tentação; pois já estudamos que o segredo da tentação é a tentabilidade do homem. Este segredo é pertinente ao próprio homem, não fora dele, não, por exemplo,nas oportunidades pecaminosas. O abismo está inserido, mesmo se ele o evitar milhares de vezes. Ele é tentado a roubar porque é um ladrão, mesmo se ele não rouba de fato. É tentado a matar porque é um assassino, apesar do fato de nunca ter matado ninguém.
         E assim, a possibilidade de sermos tentados a mentir, roubar, adulterar, nos prova que somos criaturas mentirosas. Não podemos mudar esta constituição fundamental da vida mesmo que lutemos pela verdade e contra cada mentira em cada nervo do corpo e na alma. A tentação à mentira continua; o abismo em nós clama; o pecado ali está à espera do desejo implacável. Esta é a pavorosa e inspiradora lição da tentação. “Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo sujeito a esta morte?” (Rm-7:24).

Por: Marcos Andrade.
                      
          
      
  

        
   



[1] SCHIAVO, Luigi. Orácula São Bernardo do Campo, v.1, n.1 p.4, 2005.
[2] SCHIAVO, Luigi. Orácula São Bernardo do Campo, v.1, n.1 p.8, 2005
[3] SCHIAVO, Luigi. Orácula São Bernardo do Campo, v.1, n.1 p.38, 2005

4 comentários:

  1. Ôpa, acho que já vi isso antes!!!

    Agora sim, fazendo palpites exegéticos e divulgando-os para outros também aprendam.

    Parabéns pela iniciativa!

    ResponderExcluir
  2. Parabéns meu caro colega, muito bom seu trabalho.

    ResponderExcluir
  3. Que explicação mais impressionante!!

    ResponderExcluir