quarta-feira, 20 de julho de 2011

A "santa Ceia"


ANALISANDO A CEIA DE PAULO
Por
Mário Marcos[1]


INTRODUÇÃO
            Contexto histórico. A comunidade de Corinto: Paulo passou pelo menos dezoito meses em Corinto para aí anunciar o evangelho (At-18:1-8), de 50 a 52. Segundo alguns cálculos, sempre discutíveis, Corinto contava na época mais de meio milhão de habitantes, dois terços dos quais eram escravos. Destruída em 146 a.C. Reconstruída cem anos mais tarde em 44 por Júlio César, era uma cidade nova que devia sua prosperidade extraordinária à situação geográfica e aos dois portos: Cencréia, no mar Egeu (golfo Sarônico), o outro, Lequéia, no Adriático (golfo de Corinto).
            Ela possuía as características que distinguem em todas as épocas a vida dos grandes portos: população muito heterogênea (desigual, irregular) na qual todas as raças, todas as religiões convivem lado a lado; vida fácil de uns e pobreza de outros; multidão de escravos na labuta. Mas essa cidade cosmopolitana (um conjunto bem ordenado, um todo) era também um centro intelectual onde todas as correntes de idéias estavam representadas. No século II, um retórico podia felicitar Corinto pelo número de suas escolas, dos seus filósofos e dos seus letrados, com que se podia topar em cada esquina. Era igualmente um centro religioso onde os cultos do oriente exerciam indiscutível sedução, encontravam-se ali o santuário de Ísis, Serápis e Cibele, ao lado de templos consagrados a Júpiter e às divindades tradicionais. Quanto ao relaxamento dos costumes em Corinto, sem dúvida não era pior que o de todas as grandes cidades do mundo greco-romano.
            Por sua composição, a comunidade cristã reunida pela pregação de Paulo era o reflexo fiel da cidade. Havias ricos e havia pobres (11:21-22), mas os primeiros eram uma fraca minoria (1:26); o conjunto era composto de gente simples, de escravos (7:21), em resumo, de gente desprezada (1:28).
            Esses cristãos formavam uma comunidade animada e fervorosa, mas que ficava muito exposta aos perigos da corrupção da vida ambiente: moral sexual dissoluta (6:12-20), pendências, disputas e lutas (1:11-12; 6:1-11), sedução da sabedoria filosófica e origem pagã, que se introduzia na igreja revestida de um verniz cristão superficial (1:19-2:10), e que pervertia as certezas fundamentais da nova fé (1Co-15); atração também dos cultos secretos e das correntes de pensamento que se difundiriam no século II sob o nome genérico de “gnosticismo”, cujas manifestações desordenadas ameaçavam reproduzir-se na assembléias cristãs (12:1-2 e 14:26-38). A planta cristã era sadia e vigorosa, mas suas raízes mergulhavam em uma terra que não lhe era homogêneas. Situação anormal à qual o Espírito acudiu distribuindo com abundância os seus dons excepcionais (12-14) e que Paulo, em suas cartas, procurava modificar, fornecendo ao novo rebento o húmus cristão que lhe faltava.
            Daí provém o interesse desta carta. Ela nos mostra, quase como ao vivo, os problemas suscitados pela inserção da fé cristã numa cultura pagã e os meios empregados por Paulo para resolver esses problemas.
           
            Contexto literário. Circunstâncias que motivaram a carta: Façamos um breve apanhado da seqüência dos acontecimentos que medeiam entre a primeira pregação de Paulo em Corinto e o envio desta epístola aos Coríntios. Depois de sua partida, Paulo manteve o contato com a comunidade por ele formada. Sabemos por (5:9-13) que 1 aos Coríntios fora precedida por outra carta (chamada muitas vezes de carta pré-canônica), que não nos foi conservada; nela, Paulo tratava, entre outra coisas, das relações dos cristãos com os “devassos”. Esta carta, da qual certos estudiosos acreditaram reconhecer um fragmento em (2Co-6:14-7:1), provavelmente seguia-se a um bilhete dirigido pelos coríntios,  fazendo uma pergunta a qual Paulo respondera. Por outra parte, sabemos, graças ao relato dos Atos (At-18:24-28), que a comunidade de Corinto aconselhara um pregador cristão de valor na pessoa de Apolo, judeu de Alexandria, que aderira à nova fé e em Éfeso fora definitivamente convertido ao Cristo por Àquila e Priscila, e por eles munido de cartas de recomendação quando partiu para Corinto. Os Atos especificam que Apolo era eloqüente, versado nas escrituras, e que, em Corinto, foi de grande ajuda para a comunidade, particularmente nas controvérsias com os judeus. Provavelmente era muito mais brilhante do que Paulo, ao qual censuravam a falta de eloqüência (2Co-10:10). Concebe-se, portanto que se aja formado um partido, elegendo Apolo por mestre e erigindo-se em rival do grupo dos fiéis em que se diziam discípulos de Paulo (1:12).
           
Texto (1Co-11:17-34)
17Fazendo-vos essas advertências, não vos posso louvar a respeito de vossas assembléias que causam mais prejuízo que proveito.
18Em primeiro lugar, ouço dizer que, quando se reúne a vossa assembléia, há desarmonias entre vós. {E em parte eu acredito.
19É necessário que entre vós haja partidos para que possam manifestar-se os que são realmente virtuosos.}
20Desse modo, quando vos reunis, já não é para comer a ceia do Senhor,
21porquanto, mal vos pondes à mesa, cada um se apressa a tomar sua própria refeição; e enquanto uns têm fome, outros se fartam.
22Porventura não tendes casa onde comer e beber? Ou menosprezais a Igreja de Deus, e quereis envergonhar aqueles que nada têm? Que vos direi? Devo louvar-vos? Não! Nisto não vos louvo...
23Eu recebi do Senhor o que vos transmiti: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão
24e, depois de ter dado graças, partiu-o e disse: Isto é o meu corpo, que é entregue por vós; fazei isto em memória de mim.
25Do mesmo modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a Nova Aliança no meu sangue; todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de mim.
26Assim, todas as vezes que comeis desse pão e bebeis desse cálice lembrais a morte do Senhor, até que venha.
27Portanto, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpável do corpo e do sangue do Senhor.
28Que cada um se examine a si mesmo, e assim coma desse pão e beba desse cálice.
29Aquele que o come e o bebe sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação.
30Esta é a razão por que entre vós há muitos adoentados e fracos, e muitos mortos.
31Se nos examinássemos a nós mesmos, não seríamos julgados.
32Mas, sendo julgados pelo Senhor, ele nos castiga para não sermos condenados com o mundo.
33Portanto, irmãos meus, quando vos reunis para a ceia, esperai uns pelos outros.
34Se alguém tem fome, coma em casa. Assim vossas reuniões não vos atrairão a condenação. As demais coisas eu determinarei quando for ter convosco.[2]
           

 As desordens durante a celebração da Ceia do Senhor:
            Aquilo que na igreja que se tornou culto, missa, ou a celebração eucarística (grego eukharistía, agradecimento, gratidão, ação de graças), no tempo de Paulo chamava-se Ceia do Senhor. Era realizada em casas particulares, visto que não existia ainda igreja-templo. Não se limitava a uma celebração ritual; o rito era integrado numa verdadeira refeição ao longo da qual o presidente da mesa abençoava o pão e o cálice, como o próprio Jesus fizera durante a ceia, na noite da quinta-feira santa. Contudo, em Corinto aparentemente as coisas não aconteciam como deveriam acontecer. Assim, escreve Paulo na primeira epístola aos coríntios: (ler v.17-21).
            Precipitação, egoísmo, voracidade, embriaguez... O que está então acontecendo? Como é possível haver tanta desordem numa comunidade recentemente conquistada para o evangelho? Neste campo, a documentação fornecida pela arqueologia é bastante iluminante. Ela permite conhecer melhor as condições materiais nas quais viviam as comunidades cristãs, deixando perceber que a simples organização material favorecia tais desvios: existem divisões, e ninguém espera o outro para refeição.
            Efetivamente, uma vez que as igrejas-templo não existiam ainda, as reuniões realizavam-se nas casas particulares pertencentes aos cristãos mais ricos, aqueles que possuíam habitações suficientemente grandes para acomodar algumas dezenas de pessoas. No entanto, o número de cristãos da cidade não se reduzia a algumas dezenas de pessoas; após três ou quatro anos, desde o início da evangelização, eles deviam contar pelo menos algumas centenas. Em outras palavras, falar de “a comunidade” de Corinto é uma concepção teórica, que não leva em conta a realidade; o singular não cabe aqui. É preciso falar de “as comunidades”, pois havia muitas: uma que se reunia na casa de fulano, outra que se reunia na casa de beltrano e assim por diante. No total, sem dúvida, uma dezena de lugares diferentes, situados em diversos bairros da cidade, o que não favorecia a unidade!
            Mas isso não é tudo. Reunir algumas dezenas de pessoas na própria casa significava não poder juntar todas no mesmo cômodo. Corinto, destruída pelos romanos em 146 a.C., fora reconstruída cem anos depois, em 44, graças a um edito de reconciliação concedido por Júlio César. As casas dos ilustres eram construídas à moda romana. As acomodações davam para um pátio central, parcialmente coberto, o atruim, do qual, uma parte do espaço era ocupada por um recipiente destinado a colher águas das chuvas. Apertando-se, umas quarenta pessoas podiam acomodar-se ali, sentadas sobre esteiras. Mas havia também uma sala de jantar, o triclinium, com oito ou nove banquetas sobre as quais se comia reclinado, à moda romana. O que acontecia pois nas reuniões comunitárias? Os costumes sociais dos coríntios não desapareceram do dia para noite pelo fato de se terem se convertido ao cristianismo. O proprietário da casa continuava a receber seus amigos cristãos na sala de jantar (triclinium), ao passo que os demais, menos afortunados, se amontoavam no atrium. A comida que ele oferecia era certamente melhor e mais abundante do que as provisões trazidas pelas pessoas de condições mais modestas. Ademais, dado que seus amigos eram funcionários ou grandes comerciantes, eles podiam chegar mais cedo, desde as três horas da tarde, hora costumeira para alguém convidado a um banquete. No atrium, ao contrário, os trabalhadores ou escravos chegavam somente quando haviam terminado o trabalho, ou seja, bem mais tarde.
            Agora se compreende bem melhor a descrição que Paulo faz da situação: existem divisões no grupo que se reúne na casa de fulano, não se espera o outro para a refeição, um passa fome enquanto o outro come e se embriaga. Que vai fazer o apóstolo para tentar endireitar a situação? Essencialmente, recordar a tradição da refeição do Senhor, ou seja, o relato da instituição da eucaristia tal qual era transmitido na igreja de Antioquia da Síria, aí mesmo onde ele havia aprendido. Isto nos rendeu um dos quatro relatos da instituição eucarística do Novo Testamento: (ler 1Co-11:23-25).
            E ele acrescenta seus próprios comentários que começam com: “Todas as vezes, pois, que comeis desse pão e bebeis desse cálice, anunciais a morte do Senhor até que ele venha” (1Co-11:26).
            Agindo assim, o que ele relembra a estas pessoas que vivem a Ceia do Senhor de modo anárquico, a estes que se deixam influenciar pelos costumes sociais com seus excessos e desequilíbrio? Substancialmente ele lhes explica: o que vocês celebram é coisa séria. Tem a ver com a morte, a morte do Senhor. Essa celebração faz-nos mergulhar no mistério pascal, ou seja, não é possível atingir a verdadeira vida senão mediante a morte. O corpo do Senhor, o pão eucarístico, é também o corpo que vocês formam, o corpo eclesial. Ora trata-se de um corpo crucificado, um corpo doado para os outros, por todos os outros. Não é questão de um simples corpo social que deveria ser preservado. Conseqüentemente, o modo como vocês celebram a Ceia do Senhor é indigno daquilo que vocês celebram. Vocês acham-se em completa incoerência entre suas práticas e suas convicções.
            Quais as lições, pois, que os coríntios deveriam tirar de tudo isso? E que lições podem aprender os cristãos de todos os tempos? Que não pode haver eucaristia sem partilha. Quando vocês estiverem em suas próprias casas, diz Paulo, façam como quiserem. Mas quando se reunirem para a Ceia do Senhor, “espere uns pelos outros” (1co-11:33). Não se lancem sobre a comida, não escolham os melhores pedaços.
            Podemos igualmente aprender que a vida cristã questiona certo número de reflexos sociais que se nos tornam praticamente naturais. Que há de mais natural do que levar os amigos para a sala de jantar, de comer e beber com eles, enquanto se espera que cheguem os demais? No entanto, Paulo não considera que isto seja digno de uma comunidade-igreja que é o corpo de Cristo. Num corpo, todos os membros são solidários; quando um membro sofre, sofrem todos os outros; isto é de tal importância que o apóstolo consagra quase todo o capítulo seguinte a este novo tema (1c0-12).
            Está claro que suas palavras questionam as comunidades cristãs, não importa de que época, sobre o modo como vivem as relações fraternais e sobre a maneira segundo a qual celebram os sacramentos. Apóstolo e pai dos coríntios, Paulo não pode tolerar a mediocridade daqueles que ele gerou para a fé. A reprimenda que ele lhes dirige ilustra sua solicitude pastoral. Em toda comunidade eclesial, é preciso que haja ministros que ajam em nome de Cristo, a fim de recordar aos fiéis as verdades essenciais e convidá-los a viver de maneira cada vez mais conforme ao Evangelho.

            Paulo o apóstolo da Kenosis (esvaziamento): (fl-2:1-8)
 1Se por estarmos em Cristo, nós temos alguma motivação, alguma exortação de amor, alguma comunhão no Espírito, alguma profunda afeição e compaixão,
2completem a minha alegria, tendo o mesmo modo de pensar, o mesmo amor, um só espírito e uma só atitude.
3Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos.
4Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros.
5Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus,
6que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se;
7mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens.
8E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz![3]

            A teologia da kénosis:
            O Hino Cristológico de Fl-2:6-11 é chamado de Hino da Kénosis, de kenós, termo grego que significa “vazio”. Esse título, com o qual o poema ficou conhecido na história da teologia, foi derivado do verbo grego kenóo encontrado em Fl-2:7 e que significa “privar-se de poder” ou “abdicar do que possui”. Esse termo caracteriza toda a vida de Jesus, o Filho de Deus como alguém que não se apegou à sua condição divina e ao entrar nas esferas da história e da criação, assumiu as limitações desses âmbitos, até as últimas conseqüências, inclusive ficando à mercê do egoísmo e violência humana, que o levaram à morte terrível na cruz. A maioria dos estudiosos está de acordo que o Hino da Kénosis não é de autoria paulina, mas fazia partia da Liturgia Eucarística. Isso significa que uma das teologias mais profundas do Novo Testamento teve sua fonte num hino litúrgico para celebrar o mistério pascal. E, como o mesmo hino foi usado por Paulo como expressão de uma reta compreensão de Deus em seu mistério, isso manifesta que o mesmo poema retrata uma profunda experiência mística do Apóstolo. Finalmente, ao usar o hino como exortação aos filipenses significa que Paulo faz da teologia da kénosis o fundamento da práxis cristã configurada à práxis de Cristo.
            Depois de analisarmos todo o contexto a “santa ceia” fica sem sentido. Se Cristo se esvaziou ao ponto de quebrar-se para mostrar o amor de Deus e como vivermos em comunhão com Ele e nosso próximo e todas as vezes que fizéssemos isso anunciaríamos sua morte até que Ele venha fica a pergunta: por que nos reunimos para a ceia e fazemos acepção de pessoas e só anunciamos para quem já conhece Cristo? Excluindo quem mais precisa Dele, ou Ele não disse “não necessitam de médicos os sãos, mas, si, os doentes. Mt-9:12” e o pior excluímos alguns de nosso próprio meio por não estarem enquadrados na doutrina da igreja. Foi isso que Paulo fez em Corinto? Seria isto que Cristo faria hoje?
            Quando se lê 1Co-11:27-29
 27Portanto, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpável do corpo e do sangue do Senhor.
28Que cada um se examine a si mesmo, e assim coma desse pão e beba desse cálice.
29Aquele que o come e o bebe sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação.
            Paulo não está falando aqui de pecado, pois o examinar-se é pelo fato dos irmãos estarem comendo e deixando os outros com fome, examinem-se e veja se isso é correto? Pois Cristo morreu por todos e não por um grupo, se isso é lícito para vós estão comendo e bebendo para vossa própria condenação não discernindo o sacrifício de Cristo. Paulo está usando a ceia de Cristo para sarar a fome em corinto “que não era pequena” e para isso abre mão de paradigmas e aproveita a ocasião para apresentar Cristo. A ceia era só um pretexto, o que Paulo realmente deseja é apresentar Jesus o Messias, o que importava na verdade era mostrar o amor de Deus no partir do pão.
             A ceia é para os doentes, ou seja, pecadores que não conhecem a Cristo e nós temos que anunciá-lo para estes doentes espirituais. 
Paulo usando a Kenosis: (1Co-9:19-22); (At-17:15-34)
            Analise estes textos e veja o que Paulo faz para apresentar a salvação em Cristo e veja se a ceia é tão “SANTA” assim.


[1] Mario Marcos Andrade da Silva, Bacharel em Teologia pelo (ICEC), Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos. M. 10.1.509. Além de especialista em escatologia, angelologia e aconselhamento pastoral pelo IDE Missões. 

[2]  Texto da TEB (tradução ecumênica da Bíblia)
[3]  Texto da NVI (nova Versão Internacional)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

NVI E TEB TRADUZEM MELHOR O SALMO 23:6


ARC Salmo 23:6 "Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do SENHOR por longos dias". Essa é a tradução mais conhecida desse verso do Salmo. No entanto, há um erro de tradução no termo traduzido por "habitarei". Esse erro se dá por causa de uma letra vocálica que emudece e não aparece no radical, quando conjugada na primeira pessoa do singular (verbo quiescente). Ao invés do verbo "pê yod" "ישׁב" (habitar), trata-se na verdade do verbo "ayin vav" "שׁוב" (retornar). Como o verbo está no "Perfeito", é bem provável que o "vav" que antecede o radical seja um "vav consecutivo", o que levaria a tradução para o futuro. A relevância dessa correção está no fato de que alguns comentaristas, equivocadamente, considerando o verbo "habitar", atribuem a esse verso uma "visão celestial" do salmista, quando na verdade, não existe qualquer relação a esse fato, principalmente em se tratando de um texto do AT. Sendo assim, as traduções mais fiéis para o verso estão na NVI (Nova Versão Internacional) e TEB (Tradução Ecumênica da Bíblia).

TRADUÇÃO FALHA DE PROVÉRBIOS 22:6 GERA FALSAS ESPERANÇAS


TRADUÇÃO FALHA DE PROVÉRBIOS 22:6 GERA FALSAS ESPERANÇAS
ARA - Provérbios 22:6 "Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele". Quem nunca ouviu ou leu esse provérbio? Pois é, mas sua tradução está equivocada. Seguindo as orientações do prof. Dr. Douglas Stuart (Manual de Exegese Bíblica), confirmamos que a expressão "em que deve andar" não se encontra no texto original. A tradução mais provável para o texto seria: "Instrui ao menino (ou jovem) segundo o seu (próprio) caminho (o caminho do menino ou jovem); nem mesmo quando envelhecer, não se desviará dele". Na verdade, o texto parece indicar uma advertência quanto a deixar que o menino ou jovem inexperiente siga seu próprio caminho sem a orientação de alguém experiente, podendo ter resultados negativos no futuro, e não uma garantia de que o que ensinamos hoje às crianças jamais será perdido, como sugere a tradução tradicional.
Veja a análise gramatical abaixo.

Provérbio 22.6

ACF Provérbios 22:6 Educa a criança no caminho em que deve andar; e até quando envelhecer não se desviará dele.

ARA Provérbios 22:6 Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele.

ARC Provérbios 22:6 Instrui o menino no caminho em que deve andar, e, até quando envelhecer, não se desviará dele.

BRP Provérbios 22:6 Educa a criança no caminho em que deve andar; e até quando envelhecer não se desviará dele.

`«P©G

jnH -  QAL IMPERATIVO MASCULINO SINGULAR
Ensinar, instruir;dedicar, consagrar.
X¢R¢p¢L
PREP – ART. (trad. ao) - NOME COMUM MASC. SING.
Menino, garoto, jovem; rapaz moço, homem jovem; criado, servo
-L¢R
PREPOSIÇÃO (trad. ver próxima palavra)
Sobre, acima de;diante de; por causa de, por; em vistas a, concernente a; conforme, segundo; apesar de ; contra
I¦s
NOME COMUM MASC. SING. CONSTRUTO
Boca, goela; entrada; palavra, ordem; c. prep. yPi-lfa segundo
]m¥X¢C
NOME COMUM SING. MASC. OU FEM. CONST. – SUFIXO 3ª S. M. (trad. dele/seu)
Caminho; caminhada; viagem; negócio, costume, conduta empreendimento; ação, comportamento; modo
M¢e
CONJUNÇÃO aditiva e associativa
CONJUNÇÃO adversativa
Juntamente com; também; até, até mesmo (neg. nem, nem mesmo)
-I¦m
CONJUNÇÃO
Porque, pois, que, quando, se, caso, apesar de
OI¦W¥F¢I
NQz – HIFIL IMPF 3ª SING. MASC.
Ficar mais velho, envelhecer
-@«L
PARTÍCULA DE NEGAÇÃO
Não, sem, nenhum
XhQ¡I-
RVS – QAL IMPF 3ª MASC. SING
Desviar-se do rumo; entrar, hospedar-se; afastar-se, retirar-se
D¡p£o¦N
PREPOSIÇÃO – SUFIXO 3ª FEM. SING.
dele

TRADUÇÃO FINAL: Faça você mesmo......................

terça-feira, 12 de julho de 2011

Deus tem nome?


Deus tem nome?
            Mark Sameth, formado pelo Hebrew Union College-Jewish Institute of Religion, rabino da Sinagoga Comunitária de Pleasantville, em Nova Iorque, publicou um polêmico artigo na revista Reform Judaism, em sua edição do primeiro quadrimestre de 2009. No texto, Sameth defende que o verdadeiro nome de Deus, tão buscado por gerações e gerações de judeus, é, na verdade, um nome andrógino, que mescla em equidade "todas as energias masculinas e femininas".

Eis o texto
            Quando Deus começa a criar o primeiro ser humano – Adão – ele diz: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança". O texto continua: "Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher" (Gênesis 1, 26-27).
            O texto parece estar dizendo (e os rabinos do Talmud e do Midrash entendem dessa forma) que Adão foi criado por Deus como homem e mulher. Os rabinos falam abertamente disso, e até compuseram com esmero relatos especulativos sobre a separação dessa criatura hermafrodita em personagens homem e mulher que conhecemos como Adão e Eva. O que os rabinos não estavam dispostos a discutir abertamente era até onde essa criatura terrena foi criada "b’tzelem Elohim", na imagem de gênero duplo de Deus. Mas se lermos o texto como um místico o leria, prestando uma atenção extremamente grande e assumindo que o texto bíblico mais esconde do que revela, podemos encontrar pistas que se referem à natureza andrógina de Deus. Consideremos, por exemplo, que a Torá: identifica Moisés como um pai que amamenta (Números 11, 12) [1] nos diz que Adão deu o nome de Eva a sua esposa "ki hu hay’tah eim", "porque ele era a mãe de todos os seres vivos" (Gênesis 3, 20) [2] narra que Abraão instruiu o seu servo para estar atento a uma mulher que irá dar água aos camelos porque "hu ha’ishah", "ele será a mulher" para o meu filho (Gênesis 24, 44) [3] e a lista continua.
            Por que a Torá repetidamente confunde os gêneros de seus personagens principais? A que a Torá está aludindo? Eu acredito que esses não são erros/enganos de escrita, mas a verdadeira chave para abrir um dos mistérios mais permanentes da Torá.
            Mas antes uma nota sobre as muitas ocorrências estranhas na Torá sobre os nomes. O nome do nosso patriarca Jacó é duas vezes modificado para Israel. Faraó não é um nome. E Moisés não é um nome. Moisés, em egípcio, significa "nascido de" – assim como no nome Tutmosis (nascido de Tut). Consideremos: se o nome do nosso grande líder Moisés não é realmente um nome, ele significa alguma outra coisa? De um modo interessante, se soletrarmos o nome Moisés em hebraico de trás para frente, Moshe se torna HaShem, que literalmente significa "O Nome", uma das formas dos judeus se referirem a Deus.
            Então, consideremos: se o nome de Moisés soletrado de trás para frente se torna HaShem, refletindo a natureza divina do ser humano, o nome de Deus, soletrado de trás para frente, não deveria refletir, da mesma forma, algo essencial sobre o gênero humano? De fato, sim. Observem o Yod-He-Vau-He [YHWH], o inefável nome de Deus. Conhecido como o Tetragrammaton, permitiu-se que o Nome fosse usado nas saudações diárias pelo menos até o ano 586 a.C., quando o Primeiro Templo foi destruído (Mishnah Berakhot 9, 5). Nesse tempo, sua pronúncia era permitida apenas aos sacerdotes (Mishnah Sotah 7, 6), que o pronunciavam em sua benção pública ao povo. Depois da morte do Sumo Sacerdote Shimon HaTzaddik, por volta do ano 300 a.C., (Talmud Babilônico, Tractate Yoma 39b), o nome foi pronunciado apenas pelo Sumo Sacerdote no Santo dos Santos no Yom Kippur (Mishnah Sotah 7:6; Mishnah Tamid 7, 2). Os sábios passavam a pronúncia do Nome aos seus discípulos apenas uma vez (alguns dizem duas vezes) a cada sete anos (Talmud Babilônico, Tractate Kiddushin 71a). Finalmente, com a destruição do Segundo Templo em 70 a.C., o Nome nunca mais foi pronunciado.
            Mais tarde, alguns especularam que o Nome era pronunciado como "Jeová" ou possivelmente "Yahweh", mas os estudiosos não concordaram. Ninguém sabia com certeza como se pronunciava o inefável Nome de Deus.
            Mas e se o Yod-He-Vau-He foi por muito tempo impronunciável pela simples razão de que está escrito ao contrário? De trás para frente, o Nome de Deus se torna He-Vau-He-Yod. E essas duas sílabas, He-Vau e He-Yod, podem ser vocalizadas como os sons equivalentes dos pronomes hebraicos "hu" e "hi", que são traduzidos como "ele" e "ela" respectivamente. Combinando-os, He-Vau e He-Yod se torna "Ele-Ela".
            Ele-Ela, eu acredito, é o impronunciável Nome de Deus! Esse segredo esteve escondido a olhos vistos durante todos esses anos, porque se afirma explicitamente na Torá: Deus criou a terra e as criaturas à própria imagem de Deus, masculino e feminino.
            É desnecessário dizer que a noção de um Deus andrógino que cria essencialmente seres humanos andróginos tem profundas implicações. Há muito tempo, o Zohar, o livro de misticismo judeu por excelência, declarou: "É de incumbência de um homem ser sempre masculino e feminino" – uma afirmação estranha, especialmente no século XIII. Mas a nossa sociedade recentemente começou a mostrar sinais de ser capaz de entender e de querer aceitar essa mensagem. O Dr. James Garbarino, um dos especialistas mais influentes da nossa geração em desenvolvimento de crianças, observa que as chamadas "meninas tradicionais que tem apenas características 'femininas' estão em desvantagem no que se refere ao coping [4]" e os chamados meninos tradicionais também estão em desvantagem. "Combinar os traços tradicionalmente femininos com os traços masculinos", escreveu Garbarino em "See Jane Hit", "contribui para uma maior resiliência".
            O rabino Jeffrey Salkin, autor de "Searching for My Brothers", indica que as culturas judaicas e ocidentais mantiveram por muito tempo perspectivas diferentes sobre a questão da androginia. Enquanto a cultura ocidental diz "seja um homem", ele explica, a mensagem da cultura judaica sempre foi "seja um homem bom". Ser um homem bom – o que ele define como "masculinidade madura" – é "uma combinação tanto de traços masculinos quanto de femininos". Em seu famoso livro "Deborah, Golda, and Me", a feminista judaica Letty Cottin Pogrebin desafia os judeus a "ampliar a capacidade do homem para as expressões emocionais e para o cuidado com a família, e a expandir as opções das crianças independentemente de seu gênero. É possível", ela pergunta retoricamente, "que maiores oportunidades para as crianças, homens mais amorosos e mulheres mais competentes e confiantes não sejam bons para os judeus?".

            Ao discutir o patriarcado em "The Torah: A Women’s Commentary", Rachel Adler comenta que o mundo "implora por reparos" – não apenas por causa das mulheres, mas por causa dos homens também. O trabalho do judaísmo reformado – de fato, o trabalho de todas as comunidades religiosas progressistas e igualitárias do mundo – requer um compromisso sempre mais profundo com esse reparo. Isso significa esforçar-se pela integridade em nós mesmos; com os nossos familiares; na relação entre si mesmo e a comunidade; e na relação entre as comunidades individuais e o mundo como um todo. Significa fazer tudo o que fizermos, nas palavras dos nossos místicos antigos, "l’shem yichud", basicamente pela causa da unificação de Deus.
            Agora, baseados nessa nova compreensão de Deus como Ele-Ela, é o momento de livrar-nos da concepção estereotipada de Deus como um velho homem com uma longa barba branca nas nuvens. Pensar em Deus como Ele-Ela nos concede a liberdade de ver a Divindade como a totalidade de toda a energia masculina e feminina.
            É o momento de considerarmos a mudança de nossas orações mais sagradas, particularmente aquelas que se referem a Deus como Senhor. Os antigos rabinos empregaram a palavra "Senhor" (Adonai, em hebraico) como um substituto respeitável para o impronunciável Tetragrammaton e recentemente alguns judeus reformistas – incluindo os editores de "The Torah: A Women’s Commentary" – preferiram não usá-lo. Com essa nova cognição do Tetragrammaton, podemos revisitar confiantemente nossa declaração de fé: "Shema Yisrael, Adonai Elohenu, Adonai Echad – Escuta, Israel, o Senhor é nosso Deus, o Senhor é Um" (Deuteronômio 6, 4) e afirmar, pelo contrário: "Shema Yisrael, Adonai Elohenu, Adonai Echad – Escuta, Israel, Ele-Ela é nosso Deus, Ele-Ela é Um". É o momento de afirmarmos que a tradição de igualdade de gênero da reforma do judaísmo – que deu poder às mulheres para se tornarem rabinas, cantoras e líderes leigas da congregação – não é uma invenção moderna e, de certa forma, menos autêntica, mas sim emblemática da mais antiga concepção de Deus do judaísmo.
            E é o momento de repensarmos como escolhemos passar adiante a nossa herança às próximas gerações. Se você já tentou ensinar Deus a uma classe de estudantes judeus precoces, você provavelmente já ouviu aquele sussurro do fundo da sala: "Sim, claro". Bem, recentemente eu aproveitei a oportunidade e ensinei a minha turma pós-bar/bat mitzvah a minha idéia do nome secreto de Deus e seu significado. Então, discutimos sobre o que isso implicaria em nossas relações entre nós mesmos e com Deus. Quando terminamos, uma das jovens voltou-se para os outros que estavam sentados ao redor da mesa e disse as palavras pelas quais os rabinos dão sua vida: "O judaísmo", ela exclamou, "é tão legal".

Notas:
1. O versículo, na edição Ave Maria, diz: "Porventura fui eu que concebi esse povo? Ou acaso fui eu que o dei à luz, para me dizerdes: leva-o em teu seio como a ama costuma levar o bebê, para a terra que, com juramento, prometi aos seus pais?".
2. "Adão pôs à sua mulher o nome de Eva, porque ela era a mãe de todos os viventes", na edição Ave Maria. Ou "O homem chamou sua mulher Eva, por ser a mãe de todos os viventes", na Bíblia de Jerusalém.
3. "A jovem que vier buscar água e a quem eu disser: Dá-me de beber, por favor, um pouco de água de teu cântaro, e que responder Bebe, não somente tu, mas tirarei água também para os camelos, essa deverá ser a mulher que o Senhor destinou para o filho do meu senhor’."
4. Coping é o termo da psicologia utilizado para designar o conjunto de estratégias cognitivas e comportamentais desenvolvidas pelo sujeito para lidar com as exigências internas e externas que são avaliadas como excessivas (circunstâncias adversas ou estressantes), ou as reações emocionais dessas exigências.

Filhos dos anjos com humanos?


Seriam os gigantes de Gênesis 6, filhos de anjos com humanos?
            Ao que tudo indica, é a opção mais provável. Observe bem os seguintes escritos: Gênesis 6:1,2 e 4 “E aconteceu que, como os homens começaram a multiplicar-se sobre a face da terra, e lhes nasceram filhas, viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram... Havia, naqueles dias, gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens e delas geraram filhos; estes eram os valentes que houve na antiguidade, os varões de fama”. Comparando com o Livro de Enoque 7,1,2,10 e 11, temos: “E aconteceu depois que os filhos dos homens se multiplicaram naqueles dias, nasceram-lhe filhas, elegantes e belas. E quando os anjos, os filhos dos céus, viram-nas, enamoraram-se delas, dizendo uns para os outros: Vinde, selecionemos para nós mesmos esposas da progênie dos homens, e geremos filhos... Então eles tomaram esposas, cada um escolhendo por si mesmo; as quais eles começaram a abordar, e com as quais eles coabitaram, ensinando-lhes sortilégios, encantamentos,e a divisão de raízes e árvores. E as mulheres conceberam e geraram gigantes”.
            Analisando os textos, fica evidente a relação entre eles. O Livro de Enoque, no entanto, não entrou no cânon judeu, elaborado no primeiro século da Era Cristã, mas o livro era muito apreciado por algumas comunidades judaicas, como ficou comprovado através dos manuscritos encontrados nas cavernas de Qumran e pelas citações do apóstolo Judas em sua Carta. Neste ponto, duas citações de Judas remetem ao livro: uma diretamente e outra indiretamente, sendo esta última, uma declaração tácita de que Judas acreditava no relato descrito. Vejamos: Judas 1:14 “Quanto a estes foi que também profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que veio o Senhor entre suas santas miríades” e Judas 1:6-7 “e a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia; como Sodoma, e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregado à prostituição como aqueles, seguindo após outra carne, são postas para exemplo do fogo eterno, sofrendo punição".
            Ao fazermos estas considerações, não estamos afirmando que os gigantes descritos eram filhos de anjos com humanas, mas que os autores do texto acreditavam nisso e que muitos leitores judeus, por vários séculos (incluindo aí, Judas), também acreditavam assim.




domingo, 19 de junho de 2011

O NOVO DESCONCERTA



O novo desconcerta. E a novidade radical do mundo moderno desconcertou o pensamento religioso de tal forma que existem poucas comparações na história: a secularização e o ateísmo são os sinais mais evidentes de uma crise que afetou tudo. Entretanto, se é verdade que o novo desconcerta, normalmente traz também a possibilidade de invocação. As mudanças profundas não são uma resposta ao capricho de uns poucos, mas a uma necessidade do tempo. E isso significa que, por debaixo delas, há forças que trabalham a história, tratando de reorganizá-la de uma forma nova, mais adequada ao estado atual da humanidade. Essa reorganização, quando afeta o conjunto, constitui uma “mudança de paradigma”.
            Não se trata, portanto, de modificações localizadas ou de reajustes em apenas alguns elementos: mexe-se e se reestrutura a própria totalidade, em busca de uma nova compreensão global. Essa mudança não tem por que anular o passado; o que se exige é compreendê-lo e vivê-lo de outra maneira. Especialmente no caso de experiências profundas que afetam as raízes permanentes do humano: justamente por não ser uma pedra fossilizada na corrente da vida, mas seu alimento permanente exige retraduzir-se nas novas circunstâncias. Tratando-se da fé, isso é óbvio.
            A tentação, porém, já se sabe, é quase sempre a da inércia e da acomodação: resistir à mudança ou tentar defender-se dela com meros arranjos que não vão à raiz. Isso ocorre também no âmbito científico, como o demonstrou Thomas S. Kuhn, onde, por sua maior “positividade asséptica”, não seria de esperar. E se torna praticamente inevitável no terreno comprometido do religioso. Os tradicionalismos, fideísmos e fundamentalismos são a reação extrema, e por isso mesmo mais visível e fácil de superar. Mais sutil e conseqüentemente menos perceptível é a simples acomodação que, “lampedusianamente”, muda algo para que tudo permaneça como está.
            Creio que esse representa hoje o grande perigo do cristianismo nesse nível. Não por malícia ou estratégia, mas por mero instinto defensivo e pelo próprio peso da dificuldade. Compreendeu-se a necessidade de renovação, mas ela é feita pela metade: aceita-se em princípio a crítica bíblica, mas depois se fazem leituras fundamentalistas (caso do Novo Catecismo); aceita-se a necessidade de reformar a Igreja, mas depois se reforça o seu juridicismo centralista (caso do Novo Código). Em relação a nosso problema específico: se aceita a existência de uma mudança radical na concepção da revelação, mas continuam-se mantendo os antigos esquemas de fundo. Se esse é o perigo, convém olhá-lo de frente. Porque, ademais, a fé bíblica está especialmente preparada para tanto, pois se caracteriza justamente por uma historicidade radical (a ponto de ter sido ela que introduziu de modo decisivo, a idéia de história na cultura, rompendo o prestígio da concepção circular com seu eterno retorno: Nietzsche sabia-o muito bem). Por outro lado, exemplos como o da teologia da libertação mostram que, quando uma iniciativa dessas é levada a efeito com plena conseqüência, surgem problemas, é evidente, mas se alcança aquilo que é decisivo: a presença, no mundo, de uma fé viva, atual e operante.
            Ao olhar para igreja atual parece que há algo de errado, que de alguma forma ela conseguiu mudar seu propósito e sua natureza, conseguiu desviar-se do que a princípio foi estabelecido pelo próprio Jesus, isto é, uma metamorfose inversa, de borboleta a lagarta.
            A igreja Brasileira nos últimos anos foi invadida por aquilo que denominamos de teologias da anti-missão. Uma dessas teologias é a teologia da prosperidade que levou a igreja evangélica brasileira a uma mudança de paradigma. As igrejas, bem como seus ministérios, suas pregações e suas ações deixaram de servir para serem servidas. Neste processo nossa igreja busca somente satisfazer seus próprios interesses.
            Nos últimos anos a igreja deixou de ser agente missionário para se tornar uma instituição mercadológica onde o evangelho é vendido sem escrúpulos, e onde o melhor vendedor é aquele que possui uma mega-igreja ou uma igreja de destaque na sociedade, não por aquilo que faz mais pela aparência que tem. Tenho uma séria preocupação com o modo com que à igreja brasileira absorve modelos pré-prontos, tornando-os mais importantes os princípios teológicos da missão. Quando olhamos atentamente para a igreja brasileira percebemos que ela sofre de uma síndrome que a distancia a cada instante da sua natureza missionária. Nossas igrejas não conseguem desenvolver uma ação prática que possa transformar nossa comunidade.